terça-feira, 17 de março de 2015

Dia 08 - San Pedro de Atacama - 0 Km

Depois de uma noite inteira de chuva, isso mesmo, chuva no deserto. Brincamos que o nosso santo estava muito forte, pra chover daquele jeito em pleno deserto. Fomos até indicados para quando chegarmos no Brasil irmos para a região das represas de São Paulo, talvez resolvesse os problemas de faltas de chuva por lá. As ruas ao redor do hotel estavam todas alagadas, pois, por se tratar de uma cidade de clima desértico, praticamente nunca chove, então, não há estrutura nenhuma para escoamento das águas (poucas diga-se de passagem) das chuvas. Até porque, deve chover só 3 dias por ano, justamente os 3 dias que ficamos lá.
Bom, mas felizmente não estava chovendo. A Nancy serviu nosso café da manhã: pão, manteiga, café e omelete. Estava uma delicia.
A Sara, Eu, Gilmar e Débora decidimos que iriamos à Bolívia para conhecermos a Laguna Verde. Para ir para a Bolívia, é necessário fazer a imigração na aduana que existe em San Pedro de Atacama. Chegamos lá, e levamos um grande susto. Devia ter umas 50 vans, uns 50 carros e muita gente lá esperando. A aduana estava fechada. Fui me informar sobre o que estava acontecendo e segundo o agente federal, a aduana estava fechada pois as chuvas da noite anterior haviam provocado na estrada para o Paso Jama e Paso Sico. Ou seja, ninguém entrava, ninguém saía. E não havia previsão de liberarem a aduana. Estávamos na dúvida entre esperar ou voltar para o hotel. Nisso, chegou um grupo de Chapecó, estavam voltando do Peru. Conversamos um pouco e nisso o agente nos informou que a aduana seria aberta e que poderíamos seguir.
Fizemos a nossa saída do Chile e rumamos para tentar ir para a Bolívia. Porém, uns 3 quilômetros depois, já avistamos de longe uma grande fila de carros, caminhões, vans, todos parados. A frente, havia uma espécie de lamina d'água sobre o asfalto. Uma mistura de lama, água e pedras. Paramos e pelo espelho da minha moto, vi que o Gilmar fazia sinais que não iriam adiante. Pedi que a Sara descesse e fosse a pé, de preferência por fora da estrada, pois havia uma grande lamina de barro no asfalto. E lá fui eu, tenso com aquele barro todo, muito liso e água voando até na altura dos meus joelhos. Fui devagarinho, porém, com aceleração constante e fui me sobrepondo à tanto barro. Ufa! Consegui! Agora era só subir aquela cordilheira e ir pra Bolivia. Grande engano! Logo na frente, uma viatura dos carabineros de Chile bloqueava a estrada. Eu não acreditava. Conversei com o policial, ele disse que havia alguns bloqueios pela estrada e que não era possível ir adiante. E também não havia previsão de liberarem a estrada.


Como naquele dia, ainda teria nosso casamento, achei mais prudente abortar o passeio, pois não saberia que horas poderíamos sair dali, e se realmente conseguiríamos chegar até a Bolívia. Nisso a Sara chegou e comentei com ela que voltaríamos. Ela concordou.
Na volta, vi uma estrada no nosso lado esquerdo, isso evitaria de passarmos novamente naquela lama toda. Consultei meu GPS e vi que dava para chegar novamente na mesma estrada que viemos, porém, uns quilômetros à frente. Lá fomos nós, quem disse que aquele dia não acompanharia o pacote aventura? Só que, antes de entrar na estrada, eu não reparei que ela estava bloqueada por guard-rails. Enfim, segui adiante. Depois de andarmos um pouco, vi que a estrada havia sido levada pelas águas. Ou seja, a água arrancou a estrada e se transformou num pequeno rio. Daí me dei conta porque estava bloqueada por aqueles guard rails. Novamente pedi a Sara que descesse que eu ia cruzar. Do outro lado ela subia novamente. Lá fui eu, colocar em prática tudo que sei sobre OFF ROAD: Quase nada! A Tenere, possui controle de tração (TCS), e o fabricante recomenda que em condições de pilotagem em terrenos fofos, ele seja desligado ou amenizado. E eu esqueci disso. Quando comecei a cruzar a areia, tudo certo, porém, quando chegou na parte que tinha areia + água, a coisa piorou. A moto começou a "pipocar", e eu vi que ia ficar atolado ali, no meio do nada. Quem mandou querer cortar caminho não é mesmo? Bom, pensei comigo: Devia ter desligado o controle de tração. Será que agora vai resolver ainda? Não custa tentar. Desliguei o controle de tração e desloquei meu corpo para frente, tirando peso da roda traseira, fui acelerando moderadamente e devagar consegui desatolar a moto. Ufa! Se eu tivesse que ir chamar alguém pra me ajudar a desatolar a moto, eram uns 4 quilômetros de caminhada pelo menos.
A estrada desapareceu

Passamos pela aduana para fazer a entrada novamente no Chile, porém, ainda tinha muita gente lá. Conversei com um agente que sugeriu que voltássemos mais tarde.
Voltamos para o hotel. Chegando lá, pensei que encontraríamos o Gilmar e a Débora, porém, não estavam lá. Convidamos o Alencar para irmos conhecer o Salar de Atacama. Ele topou e lá fomos nós. Fomos sentido a cidade de Toconao, pela Ruta 23. Toconao é uma cidade bem pequena, com algumas casas feitas de adobe, uma igrejinha e alguns turistas andando pelas ruas. Parece uma cidade fantasma.


Lá tirei uma dúvida sobre o caminho a seguir, e lá fomos nós para uma estrada de terra. Aproximadamente 25 quilometros. Uma estrada até que boa, com alguns pontos com lama, mas nada preocupante. Junto com o Salar do Atacama, tem a reserva nacional de Flamingos. São muitos flamingos aproveitando aquele belo local. Os guias pedem para não fazermos barulho para não afugentar os pássaros. Sinceramente, foi legal ir até lá, mas não é um lugar tão bonito assim.




Queríamos ter ido até a Laguna Cejar, não estava muito longe da gente, porém, nos alertaram que as condições da estrada não era das melhores, mais uma vez, por causa da chuva.
Voltamos para San Pedro e fomos andar pelo centro da cidade. Conhecemos o Paulo e Nanci, de São Paulo. Eles estavam chateados, pois até mesmo o passeio para os Geisers Del Tatio, havia sido cancelado. Papo vai e papo vem, comentei com eles que a noite seria nosso casamento, e se eles quisessem, estavam convidados. O Paulo não acreditou, naquele mesmo dia eles completavam 29 anos de casados. Eles ficaram bastante felizes com o convite e confirmaram que iriam a noite na igreja.
Passamos a tarde andando pelas ruas de San Pedro, visitando as lojas e não dá pra resistir, tem muito artesanato lá. São inúmeras lojas para todos os lados. E com preços bastante atraentes. Compramos várias coisas, como porta copos em couro, desenhados a mão, cachecóis, imãs de geladeira, etc.
Por volta das 16 horas, o Gilmar e a Débora apareceram. Eles acabaram indo para a Bolívia. O Gilmar disse que quando eles chegaram novamente na aduana, o agente disse que a estrada estava liberada para subir, então eles resolveram ir. Nesta hora eu devia estar lá naquele atoleiro tentando sair. 
A noite chegava e também a hora do nosso casamento. Fomos para a igreja, a missa começava as 19:30. Nesta missa havia um casamento local, estávamos esperando entre os convidados da outra noiva. E, para nossa grande alegria, aquele grupo de Toledo que vinhamos encontrando frequentemente pelas estradas, estavam todos lá para assistirem a missa. Ficaram muito felizes em saber que também seria o nosso casamento, e no fim das contas tínhamos convidados. Ah, o Paulo e a Nanci foram também.
A capela de San Pedro está em reforma, então na casa paroquial há outra igreja, onde estão acontecendo as cerimonias enquanto a igreja não fica pronta. Conhecemos uma freira brasileira que vive lá e trabalha na igreja. A irmã Luciana, natural de Recife, uma pessoa muito simpática e alegre, nos recebeu muito bem e nos deu toda atenção. E também conhecemos a irmã Esperanza, uma chilena, porém que já morou no Brasil. Estávamos em casa.
E ainda pra completar os nossos convidados, a Nancy, que cuida do hotel que ficamos, estava lá com toda a família e até mesmo a senhora que trouxe as flores para a Sara. 
Aguardamos ao final da missa, e o padre nos chamou para frente do altar. A Sara estava com os olhos mareados e eu estava nervoso também. Foi uma benção bem rápida, porém, muito bonita. Como eu disse para a Sara, a cerimonia anterior, serviu como um link, as leituras foram muito bonitas.
Na hora da troca de alianças, falei as palavras que o padre repetia com a voz embargada, olhando nos olhos da Sara que sorria para mim. E na hora que eu dei a minha mão pra ela, ela estava nervosa e combinado ao meu nervosismo, dei a mão direita pra ela sem perceber. Ela, sem também perceber, empurrou tanto a aliança que quase virou uma pulseira. Claro que depois disso, rolou o beijo, as palmas e tudo mais. Comentei com o Padre que havia um casal completando 29 anos de casado na igreja conosco e ele os chamou no altar e deu uma benção neles também. Foi muito emocionante, o Paulo e a Nanci ficaram muito felizes.








Paulo e Nanci, nossos amigos que completaram 29 anos de casados
Agradecemos imensamente ao Padre Gilberto, às freiras Esperanza e Luciana pela acolhida na igreja e pelo carinho conosco. Também agradeço ao Gilmar, Débora e Alencar, por serem meus cúmplices no plano perfeito. A Sara não desconfiou de nada.
Na saída da igreja, ganhamos até uma chuva de arroz, aquele povo era muito animado. Recebemos os cumprimentos emocionados de todos, mensagens de carinho e felicidades para nossas vidas, enfim, foi um dia inesquecível para nós. Era mais uma etapa da nossa viagem concluída, com sucesso, alegrias e surpresas.
Fechamos a noite jantando no restaurante Delicias Del Carmen, tomamos um bom vinho, brindamos à vida. Foi uma noite incrível. Estávamos selando nossa passagem por San Pedro de Atacama. Decidimos que abreviaríamos em um dia nossa estada em San Pedro e no dia seguinte seguiríamos para Iquique.
 Um pequeno erro de mão

San Pedro marcou muito para nós. Não só pelo marco que representa para quem viaja para aquela região, mas por termos abençoado a nossa união lá. Temos um laço com aquele lugar, precisamos voltar de vez em quando, temos um pedaço de nós no Chile daquele dia em diante.

Um comentário:

  1. Podem ficar bem felizes pois muitos brindarão com vcs este casamento. Parabéns.

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