quarta-feira, 18 de março de 2015

Dia 09 - San Pedro de Atacama x Iquique - 490 kms

Era hora da partida de San Pedro de Atacama, apesar de planos frustrados lá, ficam boas lembranças da cidade e dos locais que visitamos. Fica também um gosto de quero mais, pois muita coisa legal ficou sem ser vista por nossos olhos. A Laguna Cejar, A Laguna Verde e o Vale da lua e da morte. Assim fica aquela vontade de ir novamente, de voltar e conhecer o que faltou, de voltar em alguns lugares, rever as pessoas que conhecemos, que nos ajudaram e que de alguma forma marcaram as nossas vidas depois do nosso casamento. Obrigado a todos de San Pedro de Atacama, aquele lugarzinho acolhedor tem um lugar especial nos nossos corações.
Mais uma vez choveu durante a noite, mas amanheceu com céu azul e temperatura agradável, pelo menos lá em San Pedro. Eu aproveitei 4 litros de gasolina que o Alencar tinha no seu galão e fiz um abastecimento improvisado. Nossa primeira parada para abastecimento seria em Calama, a pouco mais de 120 kms. Era tranquilo para chegar lá.
Nos despedimos da Nancy, que cuida do hotel e que cuidou de nós como filhos, ajudou a Sara com alguns pequenos detalhes para o nosso casamento e que também foi até lá. Obrigado a você Nancy e a sua familia pelos cuidados e atenção conosco. Tiramos uma foto com ela e pretendo enviar a ela como forma de agradecimento. Ela nos pediu que voltássemos, quem sabe um dia.

Eu ainda tossia muito e sentia dores nas costas, porém, não reclamei dessa dor em momento algum da viagem. Achava que era cansaço. Eu estava bastante abatido com tanta tosse e dores pelo corpo. Mas estava tomando alguns medicamentos e era hora de voltar à estrada.
Saimos de San Pedro, passamos pela entrada do Vale da Lua, me bateu uma vontade danada de não ir embora sem conhecer aquele lugar, mas infelizmente, não deu. Começamos a subir um longo vale, cheio de curvas sinuosas e montanhas de tons avermelhados. E claro, com a altitude veio o frio, que não estava nos meus planos e de nenhum de nós. Ninguém vestiu segunda pele naquele dia, pensamos que seria um dia normal, com temperatura amena. Fomos subindo e a temperatura caindo. Não imaginava que ainda teríamos que encarar altitude naquela parte da viagem. Estávamos a mais de 3.000 metros, neblina e frio. Fizemos uma parada à beira da estrada, pois todos precisavam se agasalhar melhor. Todo mundo vestiu segundas peles, luvas térmicas e até uma bala de coca era bem vinda, a altitude mostrava seus sinais.


Mais a frente, cruzamos por dois motociclistas europeus, a bordo de duas XT660R, as motos estavam muito carregadas, uma delas parecia que tinha no banco traseiro uma espécie de caixote e não baú como estamos acostumados. Sem contar na sujeira, acho que eles deviam ter cruzado a Bolivia inteira para estarem daquele jeito, ou talvez terem vindo pelo Paso Sico, enfim, sei lá. Passamos por eles e os cumprimentamos.

No Chile existem muitas fazendas eólicas, e neste trecho passamos pela primeira delas na nossa viagem. É de perder as contas de quantas unidades tem espalhados pelo deserto. São enormes e deslocam uma grande quantidade de vento para produzir energia. Lá eles são obrigados a aproveitar as energias do vento, pois é um país que tirando a costa do Pacífico, quase não tem água, os rios estão secos onde ainda existem os leitos deles.



Chegamos em Calama e fomos abastecer as motos, paramos num Posto Shell e dois frentistas estressados vieram nos atender. Terminaram de abastecer e já gritaram para que tirassemos as motos. Pedimos para usar o banheiro e eles falaram que não tinha. Tudo bem, fazer o que. Fomos para o Petrobrás em frente ao Shell, lá, havia banheiro na conveniencia, pelo preço de 300 Pesos chilenos. Argumentamos que iriamos comer alguma coisa e a resposta foi: NO IMPORTA!!! Eu hei, povo chileno estressado viu. Mas enfim, vamos adiante.
Na saída de Calama, uma linda serra serpenteava uma montanha desértica, lá de cima, dava pra ver a cidade lá embaixo. E começava a aparecer as placas indicando a mina de Chuquicamata. Maior mina de cobre a céu aberto do mundo. Estava agendada uma visita nesta mina, porém, para o dia seguinte, pois estava nos planos ficar até segunda em San Pedro, porém, como o mau tempo nos adiantou um dia, resolvemos seguir adiante. Mais na frente vimos uma grande fila de caçambas de modelo fora de estrada. Aquelas com grandes rodas e com capacidade de carga absurda, devia ter umas 20 enfileiradas. Nossa, que pena, queria muito conhecer aquele lugar. Mas, planejar a viagem é bom, porém, é necessário estar preparado para ocorrer mudanças e alguns imprevistos. Felizmente não tivemos nenhum tipo de problema grave, porém, esta foi uma das pequenas mudanças, mas nada que tirasse o brilho da viagem.
De Calama, dá pra ir direto a Tocopilla e Antofagasta, porém, fomos mais ao norte, Saimos da Ruta 23 e pegamos a Ruta 5, nosso destino era Iquique e a região de Alto Hospicio, onde fica a cidade fantasma de Santiago de Humberstone. Já vou contar sobre esta parte, mas antes vou discorrer sobre o trajeto até lá.
A temperatura já tinha subido novamente, era hora de tirar as luvas e demais roupas extras, já estávamos com temperatura na casa dos 30º. Neste trajeto, existem vários locais indicados como "EX OFICINAS", trata-se de pequenos povoados que existiram no passado, devido a mineração no local. Com o fim das minerações na região, os povoados foram abandonados, para trás, ficaram escombros e algumas paredes de casas e prédios que existiam.
Na divisa das regiões, para nós chamado de estado, tivemos que parar num posto de controle. Pensei que se tratava apenas para turistas, porém, todos carros, ônibus e caminhões paravam lá. Era necessário apresentar passaporte e carimbar uma folha que recebemos lá no Paso Jama. Aproveitamos para um lanche num pequeno quiosque que havia lá. Era o que tinha, mas a moça fez uns lanches enormes e muito saborosos. Tomei um café em seguida e lá fomos nós novamente.
Este trecho é bastante deserto, sem cidades ou povoados. Mas no meio daquele deserto, passamos pela reserva nacional do Tamarugal, um lugar com muitas árvores e bastante verde, nem parecia que estávamos no meio do deserto. Mais a frente, paramos no que parecia um posto COPEC, mas só havia duas bombas, nem telhado tinha.
Fomos no bar que havia anexo, um lugar bastante antigo, decorado com muitas placas antigas e parecia que estávamos nos anos 50. Acredito que aquele bar seja um resquicio dos tempos aureos da mineração na região. Dentro do bar, música bem alta, com clássicos dos anos 80. Uma volta ao tempo. A dona do bar, bastante simpática, disse que lá é sempre assim. Muita música para fazer todas as atividades do seu dia a dia.





Estávamos quase chegando ao ponto alto daquele dia: A cidade fantasma de Humberstone, a poucos quilômetros dali, já avista as placas indicando para virar a direita e cruzar a rodovia. Avistei a cidade de longe e fiquei muito animado. Este era um dos lugares que mais esperava conhecer. Desde que assisti o DVD Caminhos da América, fiquei muito curioso para conhecer aquele lugar.
Vamos à história: Santiago de Humberstone foi fundada no final do século 19, com a finalidade da produção do salitre e abrigar os seus trabalhadores. Lá também funcionava uma fábrica de iodo e de outras coisas. É uma cidade completa, com casas, hospital, escolas, igreja, praça, corpo de bombeiros, hotel, teatro e claro, a fábrica que funcionava ao fundo. Em 1960 as fábricas são paralisadas e em 1969 o último morador deixa a cidade. Em 2005 o local é reconhecido como patrimonio da humanidade pela UNESCO, e vira ponto turistico e de preservação da história local.
Para entrar na cidade o custo é de 5.000 pesos chilenos se não engano. E prontamente o vigia do local nos indicou um local para guardarmos capacetes, jaquetas, etc.
A principio é um passeio bastante mórbido. Imagina você andar num lugar que é uma cidade inteira, porém, lá não vive ninguém a mais de 50 anos.

São vários prédios, todos bastante preservados e alguns, montados como se as pessoas tivessem acabado de sair dali. Um exemplo é a casa do médico, tem o seu consultório, com utensilios, máquina de escrever, quarto das crianças com brinquedos e berço arrumado. Pela parede, algumas fotos da família, enfim, uma casa completa.
Algumas casas exibem alguns utensílios, como latas de alimentos, equipamentos elétricos e todo tipo de coisa daquele lugar.











Fomos conhecer a planta de produção de salitre e iodo, primeiro a casa de máquinas. Onde dois grandes motores ainda estão lá, impressionante ver tudo aquilo abandonado. São enormes galpões de zinco, com algumas folhas soltas que se batem com o vento e aumentam o clima propício de uma cidade fantasma.
Fomos ao setor de manutenção, onde cada galpão era uma oficina diferente. Oficina das máquinas a vapor, máquinas elétricas e mecânica em geral. São inúmeras coisas lá, como vagões de trem, guindastes, grandes engrenagens e painéis elétricos.











De lá, fomos para a cidade. Esta é a parte mais mórbida, primeiro fomos ao teatro. Um grande prédio que para mim pareceu ser de madeira por fora. Tirem as suas conclusões. Este ficava na praça central da cidade, onde concentrava os principais atrativos da cidade naquela época. Dentro dele, parece que nunca ficou abandonado, todas as cadeiras arrumadas, um grande palco com cortinas vermelhas completam o cenário. No teto, uma espécie de claraboia, fazia um barulho estranho e algo se mexia. Paramos por alguns minutos e ficamos olhando para cima, um pouco assustados, depois descobrimos que eram uns panos pretos que balançavam com o vento.


Fomos à escola, com trabalhos pendurados nas paredes, carteiras de madeira e quadros negros, como se as crianças estivessem de férias escolares. Um lugar que depois descobrimos uma história bastante triste.



Fomos ao centro de compras da cidade, que atualmente é um dos poucos lugares que pessoas trabalham por lá. São algumas lojas de artesanatos e uma pequena lanchonete. Comprei um jogo de copos decorado com couro e pintado à mão. Ainda visitamos a igreja, muito bonita, com um crucifixo grande no altar e um belo terço emoldurado.




A UNESCO vem mantendo o lugar a quase 10 anos, preservando a história daquele local. Há muitas casas dos operários e o hotel ainda na praça, todos lá, para serem visitados. Nas paredes, existem várias pichações datadas dos anos 80, época que aquele local estava largado à degradação do tempo. Porém, isso é curioso, após tantos anos lá, o estado das coisas é bastante bom ainda. Acredito que seja por ser um lugar que chove muito pouco e que se tem baixissima umidade do ar. Isso faz com que a corrosão ocorra de forma mais lenta.
Na saída da cidade, um senhor fazia o trabalho de cuidar dos carros, em troca de algum dinheiro. Ele foi muito simpático, nos contou que sua esposa nascera naquela cidade. Também nos contou que durante a guerra do Pacífico, a cidade fora invadida e dentro da escola que visitamos, houve uma grande chacina com a morte de 270 crianças. Imagina que coisa mais triste. Também nos contou a história de uma mulher de branco que anda pela cidade a noite a procura do seu noivo. Saimos de lá bem antes do sol se por. Humberstone é um lugar incrível, recomendo a quem for ao Chile e tiver a oportunidade, que visite aquele lugar, vale muito a pena.
Rumamos pela Ruta 16 com destino a Iquique. A ruta 16 está em obras, quase toda duplicada e em breve cobrando pedágio, felizmente passamos batidos. Mais a frente dava pra seguir para Iquique via Alto Hospicio ou virar a direita por uma serra que não me lembro o nome. Só lembro que tinha algo como "Los Toros" no nome. Meu GPS mandou virar a direita e as placas mandavam seguir reto. Passei reto, depois deu peso na consciencia e voltamos para virar a direita. E foi acertado, pois pegamos uma serra linda, descemos um bocado até chegarmos em Iquique.
Iquique é uma cidade portuária, na entrada vimos muitos depósitos de máquinas, carros e containers. Todo tipo de coisas. Naquele lugar uma coisa me intrigava. Estávamos a 500 metros sobre o nivel do mar, porém, Iquique é uma cidade litorânea, eu me perguntava onde estava o mar. Visto que estávamos num nivel tão alto com relação ao Pacífico. Passamos por um bairro com casas amontoadas, muitos carros nas ruas e aparentemente um pouco perigoso. Pegamos um desvio devido a um desfile de carnaval que estava acontecendo, as ruas eram estreitas e haviam muitos carros estacionados sobre calçadas e na rua mesmo.
Continuamos andando e eu intrigado com o mar, depois de andarmos alguns quilometros por uma grande avenida, tive uma grande surpresa. Avistamos o mar, lá embaixo, bem distante de nós, e na nossa frente uma longa serra de pista dupla, em meio à dunas de areia, e entre a cidade e nós, havia outra duna enorme. Foi muito legal ver aquela vista do Oceano Pacífico, era a primeira vez que ele se apresentava para nós durante a viagem. Fomos descendo aquela grande encosta e logo estávamos rodando no centro da cidade. Iquique é uma cidade bastante antiga, tem uma grande avenida no centro, chamada Paseo Baquedano, com casarões antigos, de pé direito alto e com cara de terem sido construidos a muitos anos. Todos bem conservados. Esta avenida é na verdade um grande calçadão, ainda há os trilhos do bondinho nele. O que assusta nesta cidade é a quantidade de placas alertando sobre áreas de evacuação de Tsunamis. Confesso que isso assusta um pouco. Ficamos no hotel LA GRAN CASONA, que fica no Paseo Baquedano. Era uma grande casa antiga, totalmente reformada no seu interior, com vários andares que por fora não dava para ver. Não havia garagem, porém, nos fundos havia um ginásio que nos foi disponibilizado para estacionarmos as motos.
Tentamos ir no mesmo dia até a ZOFRI, um grande shopping com todo tipo de coisas. Óculos, perfumes, eletrônicos, relógios, roupas, etc etc.
Pegamos um taxi, e lá, os taxis não possuem taximetro. Você combina o valor com o taxista e ele te leva. O taxista era um chileno muito simpático, que nos contou que nasceu em Humberstone, questionei ele sobre a lenda da noiva e da chacina das crianças. Ele confirmou a história e que a lenda rola pelo Chile da noiva. Também nos contou que naquele dia pela manhã, fora sentido um abalo sismico lá. Com Epicentro na Argentina, para nossa sorte não presenciamos o ocorrido. E para nossa tristeza, a ZOFRI estava fechada, era domingo, pensei que abria, mas não deu certo. Estávamos conversando sobre a quantidade de carros diferentes dos que temos no Brasil, e também da quantidade de carros usados vindos do Japão e China que iam para Bolivia e Paraguai. O taxista nos levou conhecer a região portuária, onde haviam várias lojas de carros usados. Segundo ele, vindo dos Estados Unidos. Os preços beiram o ridiculo se comparados aos preços brasileiros. Um New Beetle, custa em torno de U$5.000,00. Um popular equivalente ao Gol, custa U$1.000,00. Porém, há uma ressalva, só podem rodar dentro da região de Antofagasta, ou seja, não podem sair do estado por um período de 5 anos se não me engano.
Voltamos para o centro e fomos ver o famoso por do sol no Pacífico. Sem dúvidas, um grande show! Bastante marcante, saber que no nosso lado do continente, vemos o sol nascer no Oceano Atlântico, e que, naquele momento estávamos do outro do lado do continente, assistindo o sol se por no Oceano Pacífico. Ficamos por mais de meia hora lá, contemplando aquele belo espetáculo.
Jantamos num restaurante no Paseo Baquedano, tomamos umas Corona e relaxamos, a noite estava agradável. Era o fim daquele frio todo a noite, pudemos curtir a noite numa boa, depois cama, pq no dia seguinte tinha muito mais.


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